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Será que eu tenho chance?

Publicado em

Por prof. Lica

Esse ano, enquanto eu montava as coreografias para o campeonato, diversas vezes ouvi o questionamento por parte dos alunos: “Lica, será que eu/nós tenho/temos chance de ganhar? Eu sempre respondia que sim, que dependia do esforço delas, no intuito de incentivá-las a continuar o treinamento. Mas depois de refletir bastante sobre o assunto e de ver que esta resposta não era suficiente para motivá-las (mesmo assim perdi algumas alunas boas, em função justamente da motivação ou da falta dela), resolvi mudar radicalmente de tática.

A partir de agora a resposta será sempre “NÃO, você(s) não tem chance”. E justifico o porque disso.

Primeiro por que campeonato sempre é uma caixinha de surpresas, a gente nunca sabe quem vem pra competir contra nós. Talvez fora do RS seja diferente, mas aqui nem sempre temos atletas em todas as categorias. Isso acaba gerando um certo “conforto” que não é nada legal, pois as pessoas aqui treinam para superar uma ou outra pessoa, nunca para ser o melhor.

Em segundo lugar, nem todos que praticam o esporte são atletas, a maioria são somente alunos. Parece bobagem, mas isso faz uma diferença gigantesca. Enquanto em outros lugares os treinos acontecem todos os dias, aqui ainda se faz somente 2x por semana, com 1 hora de duração cada. Isso é bacana durante a iniciação, mas pra quem quer batalhar por medalhas e principalmente por auto-superação é uma merreca de treinamento.

Em terceiro lugar e talvez o mais importante, que tudo, absolutamente TUDO que acontece e que queremos na vida é uma questão de escolhas. Escolhemos o que vamos fazer e o mais difícil: o que não vamos fazer. Que sempre ganhamos por um lado e perdemos por outro. E isso é o mais difícil de tudo. Por que para sermos campeões, temos que abrir mão de muita coisa para se dedicar ao treinamento.

Várias vezes estive dentro de uma sala, ralando e treinando, quando o dia estava maravilhoso convidando para uma caminhada ao sol junto com um chimarrão. Ou meus amigos estariam reunidos para jogar conversa fora, e eu tinha treino. Ou eu queria simplesmente pintar minhas unhas, mas eu tinha treino e as unhas ficaram em segundo plano. Eu também tinha que trabalhar para pagar os collants e os tênis, além das minhas contas usuais. Treinei várias vezes sozinha, no verão, no inverno, na chuva, no frio congelante, no calor escaldante. No piso adequado, no tatame, no piso de parquet. Com som, sem som, sem patrocínio, sem apoio psicológico, nutricional ou fisioterapêutico. Me obrigava a ir para a sala de musculação para correr, e cada vez que subia na esteira o tempo só passava quando eu começava a pensar na coreografia, pensando em cada parte dela com a música, pensando nos saltos, nas pontas de pé, na postura, nas forças, na parte artística. Tive que adequar meus horários várias vezes aos do meu treinador, quando ele podia me acompanhar. A preparação psicológica vinha com apresentações improvisadas na igreja, no shopping, e onde mais aparecia oportunidade, as vezes adaptando a rotina ao piso duro e impróprio e aguçando o ouvido para ouvir a música que geralmente o pessoal do som colocava baixa. Tive que contar com o apoio de todas as pessoas que eu amo e que me amam (e eu tive!) pois eles sabiam e sabem a importância que o esporte tem na minha vida.

Enfim, foram pelo menos 5 longos anos até conseguir que a medalha viesse para o meu peito. Nos 3 primeiros campeonatos fiquei em último lugar, no penúltimo subi para a 4a colocação e só agora consegui a tão esperada dourada. Então a partir de agora a resposta vai ser: “NÃO, você(s) não tem chance”. A chance só virá quando ela for regada por muito, muuuuuuuuito suor. Só então teremos força suficente para suportar o peso (e o orgulho) que só a medalha proporciona!

Sobre Lica

Apaixonada pelo ensino de de ballet e ginástica para crianças e adolescentes. Formada em Ed Física pela UFRGS e especialista em treinamento desportivo pela UGF.

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  1. Lembro que uma vez vi um filme, não me lembro exatamente qual era o nome (lembro que tinha “honra”), que contava a história verídica de um jovem pobre e negro que queria ser mergulhador ou algo semelhante na Marinha dos EUA – até então nunca um negro havia conquistado tal posto. Era discriminado diariamente pelos colegas que eram também concorrentes.
    Certa vez, quando questionado “por que queres tanto?”, visto que sofria uma barbaridade nas mãos dos superiores e pelo tratamento dos colegas, ele respondeu: “porque me disseram que não vou conseguir”.
    No final, ele conseguiu.

  2. Ahhhhhhh, eu vi esse filme! É incrível, maravilhoso! Tb não lembro o nome, mas a história é fantástica!
    Ele estava treinando para ser mergulhador, com aqueles equipamentos antigos, com uma espécie de capacete dourado, que tinha uma portinhola em frente ao rosto, não é?
    É, esse filme tem várias lições bacanas!

  3. eu tenho 13 anos e gostaria de ser uma ginasta com a minha idade eu tenho chance?? 13 anos nao esta muito tarde?

  4. oi andreza
    ser ginasta qualquer pessoa pode ser, mesmo quem tem mais de 50 anos.
    agora, ser ginasta de alto nível é para poucos, depende muito do tipo de ginástica e de suas habilidades prévias.
    eu por exemplo comecei a ginástica depois dos 20 anos e com 25 fui campeã sulamericana. mas antes fui bailarina por mais de 15 anos.
    daiane dos santos tinha 12 anos quando foi descoberta e já participou até de olimpíada.
    meu conselho: pratique. pratique muito. hoje em dia a ciencia do treinamento e dos esportes está muito avançada, existem técnicas fantásticas para conseguir muita coisa.
    se quiser me procurar e fazer uma aula para experimentar, estou a disposição.
    bju

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